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Um bom filme a incentivar novas abordagens sore o tema
TANCREDO NEVES merece mais filmes, e mais livros, sobre sua inusitada trajetória. Uma vida dedicada à política, única por reunir singularidades marcantes como nenhum outro personagem do Século XX no Brasil. Uma vida cuja morte só tem paralelo, em termos da presidência da República, com o suicídio de Getúlio Vargas.
É PRECISAMENTE A MORTE de Tancredo Neves o foco do filme “O Paciente”, produzido em 2018 e disponível na Netflix e no Youtube. Em verdade, a vida de Tancredo poderia ser refletida numa minissérie, com episódios voltados para períodos específicos de uma carreira repleta de momentos notáveis. Quer seja pela passagem pelo posto de primeiro-ministro – o primeiro e quase único) da efêmera República Parlamentarista brasileira (durou apenas 1 ano, 4 meses e 21 dias, entre 2 de setembro de 1961 e 23 de janeiro de 1963) –; quer seja por seu longo protagonismo como um dos maiores articuladores brasileiros; quer seja por seu papel na derrocada da ditadura militar implantada em 1º de abril de 1964. Onde se cutucar a biografia de Tancredo encontrar-se-á roteiros prontos.
SÉRGIO RESENDE é o diretor do filme em tela, e seu currículo exibe preciosidades sobre grandes personagens da história brasileira. Lamarca, Mauá, Zuzu Angel, Antônio Conselheiro (no premiado “Guerra de Canudos”) são algumas das películas que levam sua assinatura como diretor. Em “O Paciente”, Resende colecionou – simultaneamente – aplausos e vaias; foi ovacionado pela direção acurada, pela escolha do tema, pelas atuações impecáveis; e, ao mesmo tempo, criticado por reduzir demais as atribulações do mineiro de São João del Rei.
PASSA AO LARGO D’O PACIENTE, sim, a grandeza do conflito entre a banda podre das forças armadas (uma minoria extremamente perigosa que berrava pela continuidade do golpe de 1964, com o recrudescimento da corrupção e das violências do sistema) e as várias correntes (todas de direita) que defendiam a devolução do poder aos civis e a profissionalização das Forças Armadas. Uma verdadeira guerra interna foi travada, desde que, em 1974, o general Geisel, anunciou a “Distensão”, e a “Abertura Lenta, Gradual e Segura”. Essa fatia apodrecida dos quartéis jamais aceitou o retorno da Democracia e passou a realizar atos terroristas como provocação e intimidação.
É JUSTA A CRÍTICA de que o filme, apesar de muito bom, deixa de lado figuras essenciais para evitar um novo golpe militar nas horas que se seguiram à internação de Tancredo Neves. A ameaça de uma quartelada era perceptível desde outubro de 1977, quando o general Sylvio Frota tentou dar um golpe dentro do golpe e foi destituído do Ministério do Exército pelo general-presidente Ernesto Geisel. Tancredo retardou qualquer tratamento que pudesse, pela confirmação de sua saúde precária, reanimar os golpistas. Essa preocupação está bem-posta no filme, mas estão ausentes da película protagonistas que contribuíram decisivamente para impedir o golpe militar naqueles momentos tensos. A decisão sobre a posse do vice-presidente, representando a chapa eleita, foi um produto coragem e da inventividade brasileira sob grande tensão.
PERSONAGENS COMO Ulysses Guimarães e o general Leônidas Pires Gonçalves, inexplicavelmente, não foram incluídos no roteiro. Ambos jogaram papéis decisivos nas poucas horas perigosas que se seguiram à internação do presidente eleito e não empossado. Pires Gonçalves, general de direita, defensor da redemocratização e da profissionalização das forças armadas, avalizou a passagem da faixa para José Sarney, bloqueando o golpe militar em marcha que, naqueles momentos, tinha ganhado força, até pela insegurança e vacilação de muitos líderes civis.
APLAUSOS PARA SÉRGIO RESENDE e seu “O Paciente”, e que novos filmes sobre os tempos de Tancredo Neves sejam produzidos.


