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Quadrinhos contra a opressão, pelos lápis de uma mulher notável

Por Enio Lins 10/07/2026

MARJANE SATRAPI, uma das mais importantes quadrinistas de todos os tempos, se foi, prematuramente, há um mês e nove dias, aos 57 anos incompletos. Nos dias subsequentes à morte da romancista gráfica, todas as mídias veicularam reportagens sobre sua vida e obra. Pensei em escrever um comentário uns seis meses depois da morte dela, para quebrar – modestamente – o silêncio tradicionalmente seguido depois do sétimo dia. Mas a retomada das hostilidades dos Estados Unidos contra o Irã acionou o sino.

QUERO CRER SER
a pronúncia certa “Ma-ri-a-ne” (um quadrissílabo) e não o trissílabo “Mar-ja-ne”. Tenho essa impressão pelo som de “i” da letra “j” nas línguas ao leste da Europa, como Iugoslavia (Jugoslávia), Sônia (Sonja), assim como Jesus é vocalizado como “Iesus” em cantochões tradicionais. É só uma suspeita fonética, pois não tenho leitura para defender essa tese. O fato é que Mariane ou Marjane era fera, e deixou uma obra imortal cuja principal peça é a HQ “Persépolis” na qual seu traço aparentemente ingênuo desenha temáticas complexas e dramáticas de fácil compreensão visual, apesar da profundidade e crueza do exposto quadrinho a quadrinho.

NASCIDA NO IRÃ,
na cidade de Rasht, em 22 de novembro de 1969, naturalizou-se francesa em 2006. Encontrou-se como quadrinista depois da leitura de Maus, de Art Spiegelman. Entre 2000 e 2003, publicou pela editora francesa L’Association sua autobiografia, intitulada Persépolis, “conquistando imediatamente enorme sucesso crítico e comercial. A série foi traduzida para dezenas de idiomas e vendeu mais de um milhão de exemplares somente na França”, informa a Wikipédia. Nessa altura, Mariane estava vivendo em solo francês, depois de ter fugido do regime dos Aiatolás em 1994. Antes, aos 14 anos, em 1983, seus pais conseguiram enviá-la para a Áustria, onde cursou o ensino médio e viveu anos atribulados (inclusive como sem-teto). Retornada a Teerã, fez o curso superior de Comunicação Visual na Universidade Islâmica Azad. Mas uma sociedade teocrática lhe era incompatível, e ela partiu para o exílio definitivo aos 25 anos.

PERSÉPOLIS É UMA DAS OBRAS 
que consolidou as Histórias em Quadrinhos como literatura, na categoria de Romance Gráfico, ombreando-se com a citada Maus (autobiografia de Art Spiegelman, contando a saga de sua família judia desde a Europa pré-nazista até o refúgio nos Estados Unidos). Mariane apresenta sua existência a partir da infância, sob as tensões impostas pela ditadura do Xá Reza Pahlevi a uma família de orientação socialista. Criança, ela testemunhou a Revolução Iraniana, que substituiu o terror laico do Xá pelo terror religioso dos Aiatolás. Em 1982, a prisão e fuzilamento de seu parente mais querido, o comunista Tio Anouche, radicaliza sua rejeição à teocracia xiita. O livro é construído sem concessões, inclusive a ela própria, expondo seus dramas pessoais, suas dúvidas. São 352 páginas de pura história contemporânea, através do olhar de uma vítima de múltiplas opressões e violências como mulher, exilada, revolucionária, iraniana, não-religiosa... uma vítima irresignada, combatente, corajosa.

FIRMEZA NA DENÚNCIA
da teocracia iraniana é sua marca, presente em sua obra imortal. Mariane chegou a recusar a Legião de Honra, a mais importante condecoração da França, como protesto pela atitude francesa em relação aos perseguidos iranianos, pois, segundo ela, “a política de vistos favorecia filhos de oligarcas em detrimento de jovens dissidentes e artistas”. Ela, entretanto, mantendo sua inflexibilidade na crítica à teocracia xiita, jamais apoiou as agressões bélicas dos americanos e israelenses contra seu país natal. Como bem disse o site gibizilla.com.br, “Marjane Satrapi não desenhou apenas o Irã, mas sim a liberdade”.

“PERSÉPOLIS”,
em volume único, pode ser adquirido pela internet, com preços que variam de R$ 63,33 (Amazon) a R$ 44,00 (Estante Virtual). Não deixe de ler.

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