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Lições de uma tragédia alagoana que chocou o Brasil

Por Enio Lins 17/06/2026

CECI CUNHA será tema de filme produzido em Arapiraca. Nada mais justo que a cidade que foi sua base profissional e política seja o coração e mente desse documentário. Batizada como Josefa Santos Cunha, nasceu num distrito antes chamado de Mucambo, então parte do município de São Braz, área que, em 1954, cinco anos depois de seu nascimento, virou urbe autônoma.

MUCAMBO MUDOU
de nome para Feira Grande. Josefa adotou o prenome de Ceci, transferindo-se para Arapiraca, onde criou raízes como médica e professora. Fez-se liderança política, eleita e reeleita vereadora (1988 e 1992). Conquistou uma cadeira de Deputada Federal em 1994, com 30.410 votos, na nona vaga das nove disponíveis e, após quatro anos de destaque, reelegeu-se com 54.968 votos, ocupando a invejável posição de terceira mais votada. Foi a primeira mulher eleita por Alagoas para a Câmara Federal, única nessas duas eleições. Mas não chegou a assumir o segundo mandato, posto ter sido assassinada, juntamente com o marido Juvenal, e mais dois familiares, logo depois de diplomada pelo TRE, na noite de 16 de dezembro de 1998.

WAGNO GODEZ,
cineasta arapiraquense e fundador do coletivo NAVI, é o idealizador e diretor do documentário. O longa-metragem tem produção da Arte Camaleão, e a agenda prevê, até 20 de junho, finalizar a rodada de “entrevistas com personagens que ajudaram a construir importantes capítulos da história política do Estado, resgatando memórias, trajetórias e acontecimentos que marcaram a vida pública alagoana”, como informa a jornalista Lohuama Alves. O diretor explica que combinará “entrevistas inéditas, imagens de arquivo e registros contemporâneos, buscando apresentar não apenas as circunstâncias que cercaram o crime, e a trajetória de Ceci, mas também os impactos deixados pela tragédia na política alagoana e na memória coletiva do Estado. Propomos uma reflexão sobre legado, justiça, representação política e os desafios enfrentados por quem ocupa espaços de liderança pública, especialmente sendo mulher”.

LEMBRO-ME BEM
da noite de 16 de dezembro de 1998. Trabalhava na Gazeta como editor-adjunto, alternando com a suplência nas colunas políticas, e ilustrações. A jornada seria tranquila, com o noticiário fechado com certa antecedência, pois o centro das pautas era a diplomação dos eleitos. Fui pra casa mais cedo, e mal me sentei para tomar café, recebi um telefonema perguntando se sabia de algo sobre a Ceci, pois havia um boato de que ela teria sido assassinada. Liguei para a redação, falei com Ricardo Castro e Jaime Feitosa, que trabalhavam, como de costume, no fechamento do dia: Tudo indicava que sim, e uma equipe de reportagem se deslocara até a Gruta de Lourdes, em busca da casa apontada como o local do crime. Fiz o caminho de volta para a redação.

AO LONGO DAQUELA NOITE,
muitos telefonemas em busca de informações. Duas dessas ligações me ficaram na lembrança: a da presidenta da Fundação Palmares, Dulce Pereira (discando de Brasília), e do comandante do 59º BIMtz, Coronel Ruyter Barcelos. Em novembro estávamos juntos, e conversamos bastante, numa solenidade na Serra da Barriga, em União dos Palmares; não era o Dia da Consciência Negra, e Ceci Cunha a única política presente ao ato. Naquela noite, a edição varou a madrugada em apurações. As fotos eram chocantes e algumas impublicáveis, daí optamos por uma quadrinização que expusesse mais ou menos o passo-a-passo da chacina sem a crueza de determinadas imagens, colhidas pelo experiente fotógrafo Gilberto Farias. Desenhei a HQ, e o editor-geral Claudemir Araújo a colocou na primeira página. Sem a profusão – e efemeridade – das redes sociais de hoje, o jornalismo impresso jogava um grande papel naquele tempo. A comunicação mudou muito em três décadas. Mas os filmes são (quase) eternos. O cinema continua a ter grande capacidade de manter vivas reflexões sobre tragédias que vitinou Ceci Cunha e seus familiares, repassando ensinamentos, e alertando novas gerações contra a repetição de horrores como o praticado contra a primeira mulher alagoana a chegar à Câmara Federal.

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