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Um grande filme brasileiro que precisa ser mais assistido

Por Enio Lins 16/06/2026

NO DOMINGÃO, buscando escapulir da enchente de jogos da copa (como disse, meu lado torcedor se limita exclusivamente às partidas do Brasil, por puro e besta patriotismo), procurei uns filmes. Localizei na Netflix um gol de placa brasileiro: Mundo Cão.

MUNDO CÃO É UM FILMAÇO! 
Não sei o porquê, deixei de assistir – por 10 anos –, apesar de ter ouvido falar desse filme lançado em 2016. Bem que poderia ter representado o Brasil no Oscar 2017! Teria sido um forte candidato a Melhor Filme Estrangeiro, mereceria o Melhor Roteiro Original, e talvez uma indicação para Melhor Diretor. Mundo Cão é dirigido por Marcos Jorge, cujo filme de estreia, em 2007, Estômago, recebeu 39 troféus, 16 deles internacionais, tornando-se o filme brasileiro mais premiado dentro e fora do país no período de seu lançamento. “Estômago”, apesar de listado entre os 14 concorrentes, não foi escolhido para representar o Brasil no Oscar 2009.

CADA TAKE DE
Mundo Cão é uma grata surpresa! (para usar uma única vez essa tal “grata surpresa” ...). Não há como adivinhar próximo passo em Mundo Cão. O encadeamento é, aparentemente, não-linear, do ponto de vista do que seriam passos óbvios. É salteado, como se faltasse uns quadrinhos no meio de uma HQ. E cada uma dessas “puladas de cerca” é um gol nunca óbvio, obrigando a quem assiste a exercitar a cuca o tempo todo. A direção e edição são brilhantes, dispensando, em trechos estratégicos, as usuais correias de ligação. Não tem nota explicativa de pé de página, você que corra atrás do prejuízo para preencher elos suprimidos na corrente narrativa. Atuações luminosas, sem histrionismos, de Babu Santana, Lázaro Ramos, Adriana Esteves, Thainá Duarte e Vini Carvalho. Os extras também estão ótimos.

PERMEIA O FILME a onipresença do principal problema de segurança pública no Brasil contemporâneo: a sinergia entre polícias e milícias. Mas não esperem algo como “Tropa de Elite 2” (que gosto muito!), direto, explícito, doloroso. Mundo Cão dói em lapadas à prestação. É duro, mas sem perder o humor jamais. Considerando ser de 2016, dois anos antes de milicianos alcançarem a presidência da República, o filme tem seu lado de advertência, tão grave como sutil, como registro histórico.

11 ANOS ANTES
de Mundo Cão ser produzido, um medíocre deputado estadual carioca teve a desfaçatez de conceder a principal condecoração da Assembleia Legislativa, a Medalha Tiradentes, para um miliciano ainda infiltrado na PMRJ e que se encontrava preso e respondendo a inquéritos por extorsão e homicídios. O miliciano chamava-se Adriano Nóbrega e era capitão do BOPE. A homenagem ao criminoso foi chancelada pelo pai do medíocre deputado estadual, um folclórico deputado federal, o ex-capitão Jair, que repercutiu a honraria dada pelo filho em pronunciamento no Congresso. Em 2020, quando o caso Adriano Nóbrega se transformou num escândalo internacional, e o ex-capitão do BOPE foi executado pela PM baiana, gerando suspeitas de queima de arquivo, o ex-capitão Jair estava na presidência da República(!) e reafirmou publicamente, numa entrevista no dia 15 de fevereiro, que o bandido Adriano teria sido “um herói”.

EM 2026, DEZ ANOS DEPOIS 
de Mundo Cão, aquele deputado medíocre da homenagem às milícias em 2005 está candidato à presidência da República e conta com cerca de 30% do eleitorado! Percentual exibido mesmo depois de comprovada sua participação direta no butim assaltado pelo Banco Master aos cofres públicos, numa mordida na ordem de R$ 614 milhões. Dinheiro sujo levado explicitamente para uma pornochanchada política sobre o hoje presidiário Jair! Pois é: na vida real, cotidiana, o mundo está mais cão (no sentido demoníaco mesmo) que no filme ora comentado.

ATÉ COMO PREPARAÇÃO
para o exorcismo necessário em outubro, assistam Mundo Cão!

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