Posts

Há 117 anos, um “mulato” chegava à presidência do Brasil

Por Enio Lins 14/06/2026

14 de junho de 1909 – Nilo Peçanha, vice-presidente, assume a presidência da República em decorrência da morte do presidente Afonso Pena. É a primeira (única, até hoje) pessoa com traços afrobrasileiros a assumir esse posto. Mestiço, pardo, mulato, ou outro rótulo que possa lhe ser atribuído, o fato é que ele não era “branco”. De origem pobre, trouxe das deterioradas casas de barro onde cresceu no interior fluminense a assinatura fatal da Doença de Chagas, transmitida pelo Barbeiro, inseto hematófago que adotou as frestas nas paredes de taipa como seu habitat. O Trypanosoma Cruzi encerrou, aos 56 anos de idade, a carreira brilhante do “Mestiço do Morro do Coco” (como, pejorativamente, a elite de Campos dos Goytacazes o apelidou).

Eleito vice-presidente da república
em 1º de março de 1906, com 272.529 votos (vice-presidente tinha votação separada do presidente), Nilo Peçanha usou o slogan “Paz e Amor” e derrotou o político e diplomata Alfredo Varela, que teve apenas 618 votos. Antes, havia ganhado outras eleições importantes, para deputado federal para Assembleia Constituinte em 1890, senador e governador do Rio de Janeiro.

Nilo Peçanha foi ativo militante
abolicionista e republicano. Em 16 de abril de 1889, participou de uma rebelião de ex-escravos na vila de São José do Avaí, sendo ferido nos confrontos. Conseguiu fugir com apoio dos moradores locais, encoberto por um capote preto, o que o tornou conhecido como “homem da capa preta” (bem antes de Tenório Cavalcante). O preconceito racial e social foi usado contra ele durante toda a sua vida pública. Gilberto Freire, escrevendo sobre futebol e política disse que “o nosso estilo de jogar (…) exprime o mesmo mulatismo de que Nilo Peçanha foi até hoje a melhor afirmação na arte política”. Seu casamento foi um escândalo social, pois a noiva – branca e de família aristocrática – teve que fugir de casa para se casar com um pobre e mulato, embora advogado e político promissor. Foi frequentemente ridicularizado na imprensa em charges e anedotas que se referiam à cor da sua pele.

Como presidente da República,
por apenas um ano e cinco meses, até 15 de novembro de 1910, Nilo Peçanha deixou marcas importantes, como a criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), instituição antecessora da Funai, e da Escola de Aprendizes Artífices, “primeira escola técnica de ensino no Brasil que não tinha uma abordagem militar, considerada precursora da rede de institutos de ensino tecnológico. Nilo Peçanha é o patrono da educação profissional e tecnológica no Brasil, através da Lei 12 417/2011”, como diz a Wikipédia. Findo o mandato de presidente da República, elegeu-se novamente senador em 1912, governador do Rio de Janeiro em 1914, assumindo o Ministério das Relações Exteriores em 1917. Elegeu-se mais uma vez para o senado em 1918. Debilitado pela Doença de Chagas, morreu em 31 de março de 1924.

Charges