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A copa do mundo e as memórias de um torcedor muito grosso

Por Enio Lins 09/06/2026

POR PURO PATRIOTISMO palpitei 4x0 para o Brasil pouco antes do início do jogo contra o Egito, durante entrevista na rádio Delmiro FM. Chutei. Não tinha a menor ideia da correlação de forças entre as seleções. Deu 2x1 a favor do escrete canarinho.

POR PATRIOTISMO PURO 
torço danadamente para que nosso Brasil conquiste a sexta estrela. Não posso prometer que esse meu esforço de torcedor quadrienal se traduza em assistir todos os jogos, pois há muitas décadas assumi ter simpatia zero para com o futebol, sentimento igualitariamente distribuído em relação a acompanhar quase todos os esportes – à exceção do boxe e algumas modalidades olímpicas. Nada, entretanto, se aproxima da minha antipatia pela Fórmula 1, pois nunca entendi como alguém pode concentrar atenção numa competição na qual quem torce é capaz de destroncar o pescoço ao tentar acompanhar bólidos passando a mil por hora: zum! zum! zum!

TENTEI DE TODO CORAÇÃO
me ligar ao futebol. Em minha meninice isso era exigência social e rito de passagem: jogar bola, ter um time para torcer, ir ao estádio. Jogar bola sem ser ridículo sempre me foi impossível, mas fui um dos fundadores do Mangabeiras Futebol Clube, agremiação que nem sempre alcançava os 11 voluntários para disputar uma partida, e o time achava menos arriscado jogar com 10, ou nove, pois minha presença dentro das quatro linhas era um risco terrível. Testado nas 11, fiquei garantido na 12ª posição, depositado no banco. Mas era titular na redação dos ofícios manuscritos, em papel pautado, convidando times adversários para disputas quase sempre perdidas, apesar de Marcus, Marlon e Gibson jogarem bem. De vez em quando, contávamos com o craque Noé. Tive sucesso ao desenhar o escudo do MFC, copiado do Fluminense por conta do único terno de camisas que pudemos adquirir – de segunda ou terceira mão – ser tricolor no padrão verde-branco-grená. Não tivemos outra camisa, pois o time encerrou sua jornada de insucessos com menos de um ano de areiões e chão-de-barro-batido, como eram os campos em inóspitos terrenos baldios na Mangabeiras e no Jacintinho.

DOS 11 AOS 17 ANOS
de idade, entre 1968 e 1974, fui assiduamente aos estádios. Antes do Trapichão, frequentei as arquibancadas da Pajuçara e do Mutange. Por influência de minha Vó Tila (Domitila Lins da Silva), militante do cordão encarnado no Pastoril, aderi ao Clube de Regatas Brasil. Fiz parte do embrião da torcida organizada regatiana, então um punhado de gente em torno da batucada regida por Ascendino Santos (líder de um “regional”, como chamavam-se os grupos de samba, choros e outros brasileirismos). Eram quase todos homens negros, dentre os quais me recordo bem do pai do professor Edson Alcântara, um mecânico idoso com postura de rei ou xamã africano, cujo nome nunca soube, mas que me tratava como se eu fosse um neto, e não se cansava de tentar me explicar os lances em campo, pois minha ignorância era acintosa. Eu só distinguia o gol. No começo de 1974, num final de jogo no Rei Pelé procurei meu “avô africano” e expliquei que ia me afastar para estudar para o vestibular. O velho pai do professor Edson me deu força: “Está certo, rapaz. Estudo deve vir em primeiro lugar, e vestibular é coisa séria. Estude, passe, e depois volte”. Estudei, passei e não voltei mais. Contabilizo 52 anos sem ir a um estádio para ver uma partida. No final de 1994, voltei ao Rei Pelé, num CRB x CSA, mas apenas por uns minutos no intervalo – noutro artigo contarei o porquê.

INSPIRADO PELO 2x1
da partida que não assisti, repito – sem preconceito, por ter sido slogan criado pela ditadura – o brado da Copa 1970: PRÁ FRENTE BRASIL!! Minhas lembranças se concentram ali porque foi a única que acompanhei todos os jogos – pela TV, lógico – e sabia até a escalação completa. Em resumo: VIVA A SELEÇÃO! VAMOS AO HEXA!!!

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