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Lembranças da vida na Alagoa do Sul nos séculos passados
NO DOMINGO, 31 DE MAIO, a cidade de Marechal Deodoro fervilhou com a entrega ao público da restauração da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Foi um ato que extrapolou os amplos limites da comunidade católica local, pois o edifício representa muito além do patrimônio religioso. Aos valores devocionais, espirituais, somam-se valores materiais, históricos e arqueológicos.
OBVIAMENTE, SE A DATA "oficial" da igreja registra, em seu frontispício, o ano de 1783, é certo que as obras começaram muito antes disso. Hoje, a caminho da terceira década do século XXI, temos um testemunho vivo das ocorrências naquele sítio desde o século XVII (anos 1600). Como o Brasil foi colonizado a partir de 1500, estamos falando dos primórdios da construção da sociedade na qual vivemos. O arquiteto Jorge Henrique Silva escreveu um pedagógico relatório sobre o restauro do templo, documento que será impresso em breve e – antes disso – aqui pautará futura coluna – aguardem carta.
FRANS POST, notável pintor holandês que viveu no Nordeste brasileiro entre 1637 e 1644, trazido para essas plagas por Maurício de Nassau, registrou os cenários mais expressivos do domínio batavo. Dentre os quadros sobreviventes, se destaca um da então Vila de Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul, toponímico resumido pelos flamengos para Alagoa ad Austrum (Lagoa ao Sul), desenho que pode ser visto em sua inteireza na Fundação Francisco Brennand, “no” Recife. Uma cópia fotográfica está na sede da Prefeitura de Marechal Deodoro e uma reprodução, colorida artificialmente, ilustra este texto. As cruzes no alto da principal edificação, imponente e protegida por uma paliçada, sugerem um templo católico usado também como fortaleza. Aparecem ainda cenas de pesca com rede, um cortejo subindo o morro, e outro na margem da Manguaba, um arruado perto da margem lacustre, um imóvel identificado como “casa de peixes”, dentre outras representações.
RELATAM AS CRÔNICAS da época que nos combates entre holandeses e nativos leais à União Ibérica (Portugal estava submissa à Espanha), uma igreja teria sido queimada, por volta de 1633. O desenho de Frans Post mostra uma igreja/fortaleza em posição semelhante ao atual templo. E a pesquisa arqueológica revelou, no subsolo da área direita do transepto, vestígios de incêndio numa construção anterior. Esse tesouro histórico segue resguardado debaixo do piso restaurado, a espera de estudos futuros. Foram encontrados em toda a área do sítio arqueológico da Matriz muitos sepultamentos, inclusive de africanos de alguma etnia que tinha o hábito de serrar os dentes, deixando-os pontiagudos como presas - e não se têm explicações do porquê supostos escravos foram enterrados em áreas destinadas à elite escravocrata. São tesouros da memória a decifrar.
CONSTATADA A OLHOS VISTOS a excepcional qualidade das obras na Matriz, faz-se necessário apontar e aplaudir a excelência da construtora responsável pela restauração: A 4. Pode-se dizer, sem medo de errar, que "a A Quatro pintou o sete", no sentido de se exceder. Parabéns para Jair e Pedro Nogueira Alves, pai e filho e sócios da empresa, e aplausos para toda equipe composta por pedreiros, pintores, marceneiros, restauradores, engenheiros, arquitetos, eletricistas etc. Sugiro a você, que lê agora essas linhas, não acreditar nelas “de primeira”. Duvide! Faça tal qual São Tomé, procure ver para crer, tocar para acreditar. É gesto fácil e recompensador – é só ir lá e verificar.
PARABÉNS PARA o governo federal, IPHAN, Arquidiocese Metropolitana, prefeitura de Marechal Deodoro, gabinete dos senadores Renan Filho e Fernando Farias (emenda de R$ 2 milhões), deputado Paulão (emenda de R$ 815 mil) – num total de R$ 5,12 milhões de recursos públicos aportados, em seis anos de obras, para a recuperação e preservação das memórias acumuladas ao longo de quatro séculos. É esse tipo de investimento que distingue um país civilizado da barbárie.

