Posts
Moedas e tesouros da memória à mostra na antiga sede do TJ
“MEMÓRIAS EM CIRCULAÇÃO” é o título da exposição em cartaz no Centro de Cultura e Memória do Tribunal de Justiça de Alagoas. A instituição fica na Praça Deodoro, Centro. Só a visita ao prédio já vale a pena. E, para ver uma mostra valiosa como essa, melhor ainda.
CLAUDEMIRO AVELINO – juiz, historiador, colecionador, intelectual, escritor... – é o curador Centro de Cultura e Memória, e assumiu a curadoria da mostra “Memórias em Circulação” e nela estacionou sua preciosa coleção numismática, disponibilizando ao público décadas de meticulosa garimpagem de moedas de todos os tempos e em todos os continentes. Desde10 anos de idade ele se dedica a esse afazer.
“TRAZEMOS ELEMENTOS do começo da história monetária no mundo, até as moedas atuais, digitais. Tudo começou com o escambo, aqui também temos vários exemplos de moedas de troca, como sal, pau-brasil, búzios. Só no século VII a.C. surge a moeda de metal”, explica o magistrado-curador no release da Diretoria de Comunicação do TJAL. A exposição é o tributo do Tribunal de Justiça de Alagoas à agenda nacional da Semana da Memória do Poder Judiciário, inaugurada no Dia Internacional dos Museus, 18 de maio. Segue em cartaz, com gosto, até agosto, das 9 às 16 horas, de segunda a sexta.
NO PASSADO RECENTE, no Centro de Maceió, uma vitrine chamava a atenção, no janelão esquerdo da Casa Normande, localizada na Rua do Comércio, vizinha ao edifício do Produban. Loja especializada em lustres, louças, utilidades domésticas e atavios outros, exibia permanentemente a coleção numismática de Seu Durval Normande, empresário autodidata e dono de veia cultural acurada. Eram cédulas de todos os lugares do mundo, de todas as cores e formatos. Até a garotada com pendores esquerdistas buscava nos rublos, com indecifráveis inscrições em cirílico, algum diálogo proibido numa época em que a ditadura militar anticomunista se instalava com violência. Era, praticamente a céu aberto, um pequeno museu internacional da moeda.
MOEDA INTANGÍVEL de grande valor, o Centro de Cultura e Memória do Tribunal de Justiça de Alagoas merece aplausos e, principalmente, visitas. É uma vitrine da história alagoana, a começar pelo próprio palacete em estilo neoclássico tardio, uma das marcas do arquiteto Luigi Luccarini, italiano radicado em Alagoas desde meados do século XIX e que projetou alguns dos nossos mais importantes prédios públicos, a começar pelo Teatro Sete de Setembro, em Penedo, cuja fachada original ainda exibe o brasão do Império. O prédio que hoje abriga o museu do TJ foi concebido para sediar o Tribunal de Justiça e inaugurado um ano antes da derrubada do governo de Euclydes Malta (queda violenta da qual faz parte a agressão aos terreiros de macumba ligados a Malta, no episódio conhecido como “Quebra de Xangô”). O Teatro Deodoro também é obra do mesmo arquiteto, assim como o traçado original da Praça Deodoro – com suas icônicas esculturas da fundição francesa Val d’Osne, representando os quatro continentes reconhecidos como tal antes do século XX – também lhe é atribuído. Muita história, portanto, num mesmo perímetro.
EM SEU CONTEÚDO, a própria memória do Tribunal de Justiça de Alagoas é um dos tesouros da historiografia brasileira, pois muitos processos lavrados, corridos em jurisdição alagoana são parte destacada da história nacional. Nalgum escaninho certamente restarão os autos da rebelião da cidade de Alagoas (hoje Marechal Deodoro) em 1839, assim como os processos relativos ao assassinato de Delmiro Gouveia, aos crimes atribuídos a Lampião, e até inquéritos sobre beatos populares, personagens hoje quase esquecidos, como Franciscano (assassinado na Vila São Francisco) e Divino (preso e condenado por feminicídio quando esse termo não era usado). Muita história, além das moedas propriamente ditas. Circule por lá.


