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O incrível poder das facções do crime organizado no Brasil

Por Enio Lins 16/04/2026

UMA DAS MAIORES PROVOCAÇÕES políticas na história recente do Brasil foi o relatório final proposto pelo relator (cujo nome não merece citação) da CPI que deveria investigar o crime organizado. Numa impressionante pirueta, um obscuro senador tentou – com sucesso parcial – projetar seu nome aos píncaros do tragicômico folclore político brasileiro. Ganhou seus dez ou 15 minutos de fama, e esborrachou-se no centro do picadeiro.

CONSEGUIU, O VIL SENADOR, 
transformar a CPI do Crime Organizado numa CPI a Favor do Crime Organizado, pelo menos no relatório final. Pegando carona no escândalo do Banco Master, a criatura varreu para baixo do seu tapete todas as autoridades corresponsáveis pelo golpe dado pela banca do Vorcaro. Foram anistiados preventivamente o então presidente do Banco Central, Campos Neto, e todos os envolvidos de importância, como o governador do DF, Ibaneis Rocha, o ex-governador do Rio, Cláudio Castro, demais políticos do PL, e diretores do BC. O alvo do relator foi quem possa incomodar o sono do ex-capitão, o hoje presidiário Jair Messias.

TENTOU INDICIAR, O TAL RELATÓRIO
, os ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, e o Procurador Geral da República, Paulo Gonet. Exatamente nomes que provocam soluços ao ex-capitão e em sua linha de comando. Algumas dessas autoridades poderiam ser recomendadas, pelo relator, para o aprofundamento de futuras investigações sobre o caso Master. Seria um exagero, mas – vá lá. Poerém, pedir o indiciamento dessas pessoas enquanto oculta os personagens notoriamente responsáveis pela falcatrua Master, é um gesto de cinismo e descaramento como poucos cometidos dantes na história deste país. Um crime. Organizado.

REJEITADO PELA 
pela própria CPI, a provocativa proposta de relatório foi remetida aos arquivos numa operação de resgate ético do Senado, que mais uma vez, envolveu contrapressões e articulações extras que seriam desnecessárias num parlamento que se desse ao respeito. “O relatório apresentado revela verdadeira cortina de fumaça, ao deixar de enfrentar o grave problema a que se propôs e ao dedicar-se a engrossar a espuma midiática contra o Supremo Tribunal Federal, na expectativa de produzir dividendos eleitorais para certos atores políticos”, declarou com muita acuidade o ministro Gilmar Mendes sobre o incidente. Mas é pior ainda a realidade. O relator não só buscou os holofotes midiáticos, mas – antes de tudo – procurou jogar a penumbra mais espessa sobre o tema real da CPI, protegendo as facções criminosas de forma ampla, geral e irrestrita. Esse foi o maior crime organizado pelo relator.

LEMBRAM-SE DA MOTIVAÇÃO
da CPI do Crime Organizado? Ela foi criada em decorrência da crise de segurança pública no Rio de Janeiro, depois da megaoperação praticada pelo governo carioca, que assassinou 122 pessoas nos complexos do Alemão e da Penha. A CPI foi proposta para investigar as responsabilidades da polícia carioca na ultraviolência, seus elos com as facções, e sugerir saídas para essa tragédia nacional. Quando surgiu o escândalo Master, o bolsonarismo, através do dócil relator, redirecionou as investigações para longe de sua área de vulnerabilidade (a vinculação de parte das polícias com as milícias e demais facções do crime organizado em todo país) e lançou mão do esquema de Vorcaro (e Campos Neto?) como um compacto biombo de ocultação.

COMO RESULTADO
, as coisas ficaram totalmente bagunçadas, num tremendo prejuízo para a cidadania, a lei e a ordem. Foi desperdiçada uma grande oportunidade de se avançar no combate às facções. O relator obteve uma vitória pessoal parcial, ganhou precioso espaço midiático, apesar da derrota do relatado. O crime organizado, real, poderoso, obteve vitória total e absoluta: sumiu do relatório da CPI criada para o investigar.

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