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A morte e as mortes de Jair Berro d’Água, uma novela infinda

Por Enio Lins 26/03/2026

JORGE AMADO, no romance “A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água”, conta a estória de um pacato cidadão que resolve cair na esbórnia sem limites. Morre de cachaça. No velório, colegas de farra raptam seu cadáver para com ele rondar pelos bares, puteiros, ruas, praças, esculachando geral.

JAIR BERRO D’ÁGUA
é um estroina real, mas nunca viveu como o homem de bem que o Quincas da ficção foi um dia. Militar de triste carreira, subverteu a hierarquia, opondo-se ao compromisso da caserna com a Democracia firmado em 1985. Ameaçou seus superiores e a sociedade civil com atentados terroristas. Preso, em 1987, condenado em primeira instância, se acovardou, negou as ameaças feitas, chorou, soluçou, implorou anistia: descondenado, passou para a reserva (remunerada). Morria ali como militar, mas o cadáver fardado reviveu civil para seguir farreando como político profissional. O insepulto inchou na vagabundagem parlamentar por 30 anos de esbórnias, entre 1988 e 2018, até enxergar a brecha para ser candidato à presidência da República.

USAR A PRÓPRIA MORTE
como bandeira passou a ser o mantra de Jair B depois da facada mágica. Em 2018, todas as pesquisas confirmavam que, mesmo com Lula preso pelas armações de Moro-Lava-Jato, o infame capitão perderia no segundo turno, embora tivesse votos para sobreviver ao primeiro turno. Aí surgiu o atentado milagroso! A inefável faca – que teria penetrado no corpo de Jair sem furar sua camiseta, nem derramar uma gota de seu sangue – causou um corte epistemológico no bolsonarismo: o treinado para matar virou um adestrado para morrer! Dali em diante, o meliante se especializou como moribundo profissional, berrando “Tô morrendo!” a cada dificuldade que se lhe apareça.

DURANTE A PANDEMIA
de Covid-19, cheio de poder e saúde na presidência da República, Jair esqueceu-se de suas comorbidades berradas pós-facada. Jactou-se de seu “histórico de atleta” para desdenhar o Coronavírus, rebaixado por ele a uma “gripezinha”. Recusou adquirir vacinas e as combateu depois de ser obrigado a comprá-las. Negou-se a ser vacinado e a usar a máscara, assumindo o papel de garoto-propaganda da morte, atacando todas as medidas preventivas. Ridicularizou pessoas morrendo asfixiadas em decorrência do vírus. E, como consequência dessa inescrupulosa atitude presidencial, o Brasil registrou mais de 700 mil mortes pelo Covid entre 2020 e 2022. Em 8 de outubro de 2021, quando o país alcançou a marca de 600 mil mortes, reportagem n’O Globo constava: “Sexto país mais populoso do mundo, o Brasil, é 2º em óbitos causados pelo novo coronavírus o 3º com mais casos confirmados” e destacava que, em relação à população, nosso país era o 59º em doses administradas das vacinas. Na época, com 700 mil óbitos, os Estados Unidos, presidido pelo também negacionista Trump, em seu primeiro mandato, era o grande campeão em mortes pelo Covid-19.

CONDENADO E PRESO 
novamente, sem conseguir a impunidade sonhada, Jair Berro d’Água se derrama em novas mortes anunciadas. Tantas que conseguiu voltar a sua luxuosa “prisão” domiciliar, a partir de ontem, por 90 dias. Na mansão, seguirá a mesma rotina mórbida: A qualquer momento, o bolsonarismo raptará seu quase-cadáver para com ele farrear pelos inferninhos da mídia. Não! Jair não pode viver morrendo assim: ele tem uma pena para cumprir. Se é delicado seu estado de saúde, o melhor local para mantê-lo vivo é a Papudinha. Lá ele dispõe de acompanhamento médico permanente, podendo ser deslocado imediatamente a qualquer UTI. Em casa ele é mais morrível, pois estará cercado por gente que só tem a lucrar com seu óbito, ou semióbitos. Lembrem-se do 6 de setembro de 2018, em Juiz de Fora: Jair estava cercado por familiares e centenas de bolsonaristas fiéis; muitos armados. Todos preparados para defendê-lo – e a faca, pá!

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