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A polarização nossa de cada dia nos dai hoje, senhores do Centro

Por Enio Lins 24/03/2026

JOÃO SANTANA, um dos mais relevantes marqueteiros do Brasil, em seu espaço no Instagram, @joaosantananareal, postou na sexta-feira, 20 de março, uma avaliação sobre uma “avenida” disponível para quem se proponha a trilhar um caminho do meio entre o Lula e Os Bolsonaros. Deu uma aula sobre essa virtual terceira alternativa e sua fala segue no ar, disponível. João Cerqueira de Santana Filho, 73 anos, baiano, é jornalista, músico, escritor, publicitário, e gênio do marketing político.

SEU CURRÍCULO,
resumido pela Wikipédia, diz: Comandou o marketing vitorioso de oito eleições presidenciais, o que lhe confere um local destacado no ranking mundial de sua atividade. Foi o coordenador das campanhas vitoriosas de Lula (2006) e Dilma (2010 e 2014), no Brasil; Hugo Chávez (2012), na Venezuela, Maurício Funes (El Salvador), Danilo Medina (República Dominicana), e José Eduardo dos Santos (Angola) – essas três vitórias no mesmo ano, 2012, num feito inédito no marketing político internacional. Em 2020, foi colocado, pela revista Campaigns and Elections em nono lugar na lista dos dez melhores consultores políticos do mundo.

CORRETA É A TESE
sobre o caminho do meio. Existe. E não existe. Teoria perfeita, mas na prática o rumo é outro. Na histórica campanha de 1989, a primeira pós-ditadura, de voto solteiro, o caminho do meio foi detonado antes da disputa alcançar o meio-dia. A luta real se restringiu ao entendido então como esquerda versus direita. Protagonistas centristas sumiram da raia. Celebridades experientes, como Ulisses Guimarães, Aureliano Chaves, Mário Covas, Affonso Camargo, Celso Brant... desapareceram. Afif Domingues, o nome novo ao centro, suou a camisa, mas nem foi notado. No primeiro turno, polarização sem meios-tons: esquerda com 33,7% dos votos – Lula (17,19%) + Brizola (16,51%) – e a direita com 30,48% concentrados em Collor. Nenhum dos outros 19 candidatos conseguiu alcançar 12% do eleitorado. No segundo turno, míseros 0,06 pontos definiram a parada: 50,03% para Collor contra 49,97% para Lula.

NAS ELEIÇÕES SEGUINTES,
a toada bipolar foi a mesma, embora as duas campanhas de Fernando Henrique Cardoso, com o centro atraindo eficientemente a direita, redundaram vitórias no primeiro turno, mas com o segundo polo se mantendo acima de 25% do eleitorado. Sem que a extrema-direita desempenhasse papel, FHC venceu Lula em 1994 por 54,28% x 27,04% e em 1998, com 53,06% contra 31,71%. E o caminho do meio? Seguiu virgem. Ao longo dessas nove eleições democráticas, um dos polos sempre esteve com o PT, considerado o “campo da esquerda” (na verdade, centro-esquerda). Embora, em 2014, Aécio tenha mergulhado no delinquente êxtase lavajatista, a novidade aparece em 2018, quando a extrema-direita tresloucada ocupou o polo até então cativo da centro-direita. Um mito brotou da lama autoritária, da direita mais estúpida, trazendo consigo ligações explícitas com o pior do crime organizado (as milícias), com a corrupção do tipo rouba-mas-não-faz, com um programa centrado em palavrões e agressões e que pode ser resumido em “bandalheira geral, e para os meus, proteção da Polícia Federal”. Mesmo com Lula preso, e no auge das emoções direitistas, extremadas pela vitimização da mágica facada em seu candidato, a chapa (ousadamente esquerdista) PT & PCdoB conquistou 44,87% dos votos no segundo turno, quase duplicando a votação do primeiro turno (29,28%). E a raia do centro sempre desocupada - o terceiro colocado, naquele inusitado pleito, obteve apenas 12,47%.

QUANDO O CAMINHO DO MEIO
foi via para a vitória nas eleições presidenciais brasileiras? Numa vista d’olhos às disputas do voto direto pela presidência da República, não se enxerga pleito sem polarização. Mas talvez um bom estudo acadêmico possa trazer outra luz. Na disputa deste ano, dois polos se confrontam: centro-esquerda versus extrema-direita. A colocação de João Santana, teoricamente sólida, se desmancha no ar. O centro, fragmentado, se agrega a um e a outro lado – e, na prática, segue no poder com qualquer polo que ganhe a eleição. Talvez isso explique a inviabilidade da dita “avenida” entre Lula e The Bolsonaro’s.

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