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Banksy deixou de ser um mistério no mundo das artes de rua?

Por Enio Lins 20/03/2026

BANKSY, SUMIDADE ENTRE AS SUMIDADES da arte de rua em todo o mundo, teve seu nome real – até então secreto – anunciado como descoberto por uma investigação patrocinada pela Agência Reuters. O mistério em torno da identidade do artista se alongou por, pelo menos 27 anos, desde a notoriedade internacional conquistada por suas pinturas murais na cidade inglesa de Bristol. Apesar das evidências de que a apuração tenha sido criteriosa, uma aura de mistério ainda paira sobre a esquiva criatura, até porque durante muito tempo se especulou ser aquela assinatura uma expressão de um codinome coletivo e não uma individualidade.

NÃO VOU REPLICAR
aqui a identificação anunciada. Na verdade, foram divulgadas duas denominações, pois o artista teria mudado oficialmente nome e sobrenome em algum momento. Eu prefiro a magia da clandestinidade original dos velhos tempos em que o escondimento da cara de um autor singular sob aquele pseudônimo era a referência para intervenções sempre jovens, talentosas, criativas, corajosas, satíricas, aguerridas. Banksy é uma das marcas globais mais marcantes na virada do século XX para XXI. Sua assinatura é sinônimo de inventividade, associada ao rigor técnico e a facilidade de transmissão de mensagens profundas. Seus murais são a perfeita expressão do mais fino cartum: crítica gráfica, contundente, de leitura fácil e universal.

PROVOCAR COM CONTEÚDO
é sinônimo de Banksy. Um dos maiores exemplos dessa postura foi o leilão de um stencil assinado por ele, em 2018, na Sotheby's. Arrematada por £ 1.000.000 (um milhão de libras, ou R$ 6.970.060,00 pelo câmbio atual), a obra – assim que o leiloeiro anunciou a venda – foi picotada por um triturador escondido na moldura. Uma sacudida impactante, uma lapada contra a comercialização da arte. A gravura se chamava Girl with Balloon e reproduzia um grafite famoso do mesmo autor. As reportagens sobre o acontecimento nunca explicaram o que houve na sequência: A compra foi cancelada? O comprador aceitou levar os fiapos de papel? Mas imortalizou o impacto da inusitada performance como ato de pura arte contestatória, um fato instigador para reflexões sobre o valor do objeto artístico.

SEMPRE QUESTIONANDO
temas monetários, ações culturais e atitudes políticas, denunciando violências, o clandestino artista realizou algo inusitado, que pode ser considerado uma “instalação” – por sinal tão atrevida e arriscada que causou enorme perplexidade em todos os fronts de uma guerra cruenta. Em 2017 fundou o Walled Off Hotel (Hotel Murado, na tradução Google), localizado na bíblica Belém, coração da Cisjordânia, área palestina violentada por Israel. Segundo o material de divulgação feito pelo próprio artista e investidor, o hotel oferecia ‘a pior vista do mundo’, pois os quartos tinham janelas voltadas à muralha erguida pelos sionistas para isolar a comunidade árabe originária. Em 2023 o empreendimento (e/ou obra de arte) fechou as portas por conta do avanço do terrorismo israelense na região. Ele também arriscou a vida pintando murais nas ruas de Gaza, denunciando as matanças sionistas.

IDENTIFICADO OU NÃO,
seja uma só pessoa ou uma legião, quem quer que use o cognome Banksy segue sendo a personalidade mais relevante nas artes plásticas de rua em todo o mundo. Criatividade, coragem e contestação seguem sendo suas marcas registradas. Como fã, na falta de talento para ser imitador, sigo fiel à ignorância da verdadeira identidade do grande mestre – no mínimo, até que o próprio se identifique por conta própria. Mesmo assim, considero ser o certo chamá-lo pelo nome que assinou desde seu nascimento artístico. E, como nos tempos em que existiam livrarias dignas dessa denominação, sigo caçando seus livros, álbuns da mais pura arte mural.

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