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Com ou sem Oscar, O Agente Secreto é o grande campeão!
NO DOMINGO, 15, a mais famosa premiação do cinema mundial será concedida, em sua 98ª edição, no Dolby Theatre, em Los Angeles, Estados Unidos. Preferindo dispensar as emoções do acompanhamento em tempo real, adianto minha torcida pelo Agente Secreto. Como no ano passado, com Ainda Estou Aqui, considero o filme de Kleber Mendonça Filho o grande vitorioso desde antes.
NÃO GANHANDO NADA da Academia de Hollywood, já ganhou. Independentemente do que possar vir de lá, lá chegou com quatro indicações: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, Melhor Elenco. O Brasil conquistou, com O Agente Secreto, um extraordinário espaço internacional, exibindo a alta qualidade do cinema brasileiro – e, não menos importante, debatendo a memória de uma ditadura corrupta. Tema universal, contemporâneo, pois as velhas formas autoritárias seguem ameaçando o mundo.
AINDA ESTOU AQUI torcendo. Vibrando. Os dois filmes fazem profundas denúncias, sem panfletarismos (e tenho respeito pelos panfletos). N’O Agente Secreto, o papel central, fictício, é ainda menos engajado que Rubens Paiva, personagem real. A sentença de morte contra Armando/Marcelo (Wagner Moura) deve-se à sua recusa de participar de um esquema de corrupção. Contra ele foi montado uma ação “apolítica” unindo agentes da repressão política (militares e civis) com bandidos comuns, assassinos de aluguel.
ESSA DUPLA MILITÂNCIA, com agentes da ditadura participando simultaneamente da repressão política e de crimes comuns (assassinatos, assaltos, tráfico...), é traço característico da ditadura brasileira implantada em 1964. E esse laço se estende até hoje, como se pode conferir na simbiose entre as milícias e mitos da extrema-direita. A ficção n’O Agente Secreto, não por coincidência, lembra um crime covarde, cometido em Pernambuco, emblemático dessa simbiose: o Escândalo da Mandioca, que resultou no assassinato do procurador da República Pedro Jorge de Melo e Silva, aos 35 anos de idade, em 3 de março de 1982. Recebeu três tiros à queima-roupa, quando saía de uma padaria, em Olinda. O general João Batista Figueiredo era o ditador de plantão.
PEDRO JORGE DE MELO E SILVA, alagoano, era o responsável pelas investigações sobre um gigantesco esquema de corrupção que drenava fortunas de financiamentos do Banco do Brasil que deveriam ir para a produção rural (mandioca), no município de Floresta, Pernambuco. Calcula-se que foram roubados, em moeda da época, entre 1979 e 1981, cerca de CR$ 1 bilhão e 500 milhões. O procurador denunciou 31 pessoas, dentre elas, o temido Major Ferreira, o Capitão Audas Diniz, e o Deputado Vital Novaes. Jurado de morte, o Pedro Jorge foi abandonado ao relento pelo governo do General Figueiredo. O procurador-geral da República, Inocêncio Mártires Coelho, afastou-o do processo, em meio a uma enxurrada de ameaças, fragilizando sua posição.
MAJOR DA PM de Pernambuco, José Ferreira dos Anjos não só foi o assassino do procurador Pedro Jorge. Depondo em 2012, confirmou ter participado do atentado, em 29 de abril de 1969, contra o líder estudantil Cândido Pinto (alvejado na coluna, ficou paraplégico pelo resto da vida), e da tortura e assassinato, em 27 de maio de 1969, do Padre Henrique (assessor de Dom Hélder Câmara). Major Ferreira afirmou ter sido “recrutado pelo então comandante do 4º Exército, General Ednardo D'Ávila Melo para atuar no combate a opositores do regime militar” e descrevia-se como “um homem de direita a serviço da Revolução de 1964”. Condenado a 32 anos e seis meses de reclusão por homicídio e falsidade ideológica, ganhou a liberdade após cumprir 10 anos, sete meses e 13 dias de pena. Morreu, livre e solto, em 19 de novembro de 2018.
ATUAL, CORAJOSA, NECESSÁRIA, a denúncia d’O Agente Secreto afronta o mito de que “a ditadura militar torturou, matou, mas não roubou” - uma mentira patética repetida à exaustão pela extrema-direita. Essa alegoria essencial, expondo uma das marcas do golpe de 1964, é um dos muitos valores do filme de Kleber Mendonça Filho & equipe, mérito que, certamente, o eleitorado do Oscar não tem como perceber. E muita gente no Brasil também não nota, ou finge não entender.

