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É ler para crer, e descrer, desentorpecer, contradizer
INCRÍVEL COMO UM MILIONÁRIO com bala na agulha para gastar R$ 200 milhões na festa de seu noivado, só tenha recursos para ter um único celular, um único chip. Esse é o caso, aparentemente, de Daniel Vorcaro. Segundo publicado pelo G1, 07/03/2026, “uma planilha de despesas obtida pelo G1 revela que uma festa privada organizada pelo banqueiro Daniel Vorcaro em Taormina, na Sicília, em setembro de 2023, teve custo estimado de R$ 222 milhões (US$ 42.4 milhões), considerando valores atuais”.
INCRÍVEL COMO UM BANQUEIRO colocou no bolso extraordinária fortuna, entre 2019 e 2025, através de ciclópicas fraudes, graças aos olhos bem fechados de um Banco Central conivente, e que seu único celular não tenha sequer uma mísera mensagem trocada com quem comandou o tal “BC independente” durante esse afortunado período.
INCRÍVEL COMO O ÚNICO telefone do meliante tenha ligações supostamente comprometedoras praticamente apenas com personagens tidos como “inimigos do bolsonarismo”, como o ministro Alexandre de Moraes – cuja esposa aprece na fita na condição de integrante de um dos escritórios de advocacia contratados (por uma fortuna) para fazer a defesa do banqueiro.
INCRÍVEL COMO UM PRESO, sob custódia de autoridade competente, possa ter tirado a própria vida numa cena semelhante a Vladmir Herzog (em 1974) e Jorge Luís dos Santos (em 1996), que conseguiram se matar com suas roupas. Da mesma forma, há poucos dias, Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, detido pela suspeita de ser capanga de Vorcaro, morreu, ou foi morrido, numa cela da PF em BH. Será que Ustra vive?
INCRÍVEL COMO SÃO SEMELHANTES esses suicídios: cometidos sem motivação aparente pelos suicidados, usando peças das vestimentas, e com fortes componentes políticos em todos os três casos. Ah, sim: Jorge Luís dos Santos foi preso sob a acusação de ter assaltado o então deputado Jair Bolsonaro, em 4 de julho de 1995, levando-lhe a arma, a carteira, e a moto. Jorge Luís foi detido na Bahia em 4 de março de 1996, transferido imediatamente para o Rio de Janeiro, e apareceu morto no dia seguinte, na cela, pendurado pela camisa atada ao pescoço por um nó de marinheiro.
INCRÍVEL COMO A GRANDE MÍDIA, repito, não questiona a ausência de Campos Neto nessas movimentações investigatórias sobre o escândalo Banco Master. Ora, insisto: nada disso teria acontecido sem a anuência – ou a incompetência conveniente – do alto comando do BC, instituição responsável para impedir esse tipo de crime. Será necessário aparecerem mensagens explícitas entre Vorcaro e Neto para que uma leve desconfiança de conluio entre os dois possa pautar o velho e bom jornalismo investigativo?
INCRÍVEL COMO NÃO APARECEM, nas reportagens, mensagens (sequer é lembrada a ausência delas) sobre as principais operações estratégicas, suspeitas de crimes financeiros graves, como a tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília, nem sobre os investimentos volumosos feitos por governos e prefeituras dirigidas por bolsonaristas. Vorcaro não trocou nenhuma mensagem com esses seus parceiros pelo único celular que dispunha?
INCRÍVEL COMO ALEXANDRE DE MORAES, o maior expoente da magistratura brasileira (em um século, pelo menos) – referência para a consolidação do Estado Democrático de Direito no Brasil, ministro com disposição para peitar golpistas civis e militares de alto coturno, cidadão brasileiro com coragem para enfrentar Trump e a discricionária lei Magnitsky – deixa a guarda aberta para ter seu nome envolvido nessa armação master. Ressalte-se que, até agora, inexistem provas, sequer indícios, de que ele teria tentado aliviar os processos que liquidaram o Banco Master e levaram Vorcaro (e cúmplices) à cadeia. Mas, em tempos em que pós-verdade é anti-verdade, toda transparência é pouca.

