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Macumba, política, e apagamentos em Alagoas – Parte 2

Por Enio Lins 27/02/2026

SÓ EM ALAGOAS aconteceu algo como o Quebra de Xangô, até prova em contrário. Mas a interação entre política e terreiros não é exclusividade alagoana. Não é Euclydes Malta o único oligarca branco a ser ungido nos pejis, Brasil afora.

NÃO SÓ EM ALAGOAS
a simbiose entre política e religião é corriqueira. O cristianismo é useiro e vezeiro nesse quesito em toda terra. No Brasil, o catolicismo foi parte integrante do Estado até a República. Até hoje ulula o indevido vínculo estatal nos crucifixos pespegados nas instituições públicas constitucionalmente laicas. Apesar dos privilégios, entre 1964 e 1985, religiosos cristãos que ousaram defender a Democracia e os Direitos Humanos foram perseguidos, presos e torturados. Perderam a vida os padres Henrique Pereira Neto e João Bosco Burnier, o frei Tito de Alencar, as freiras Irmã Adelaide Molinari e Irmã Cleusa Coelho – cinco assassinatos políticos oficialmente registrados. No caso das religiões de matriz africana, a vulnerabilidade sempre é brutalmente maior, em qualquer tempo e lugar, pois, além das pressões políticas, acrescentam-se sobre os terreiros pesadas discriminações de raça, de status socioeconômico, e de crença propriamente dita.

ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES
, um dos maiores líderes conservadores brasileiros, é o melhor exemplo da intimidade da política com os terreiros (e com igrejas cristãs, lógico). Em 3 de fevereiro de 1994, a Folha de São Paulo destacou: “O governador [da Bahia] Antônio Carlos Magalhães (PFL), 66, visitou ontem pela manhã o terreiro do Gantois para cumprimentar os integrantes da casa pelo centenário de nascimento de Mãe Menininha. (...) Recebido pela filha e sucessora da mãe de santo, Cleuza Millet, ACM ganhou da comunidade uma placa comemorativa do centenário e uma estatueta de Xangô”. Mas a questão de maior significado é que ACM, anos antes, foi distinguido com o título de Obá de Xangô, pela icônica Mãe Menininha do Gantois (1894/1986), como lembra Rafael Pinto, fundador do Movimento Negro Unificado, ouvido pelo site almapreta.com.br, na reportagem “Candomblé, Umbanda e Ditadura: reconhecimento e perseguição”. Por outro lado, na mesma matéria, Basílio Filho recorda do uso, em São Paulo, “de um código, chamado de ‘fura-bumbo’, utilizado por policiais para se referir a oficiais subalternos que entravam em terreiros de Umbanda e Candomblé e quebravam os instrumentos musicais”.

DAS RAÍZES ALAGOANAS,
80 anos depois do Quebra de Xangô, emergiu a velha abordagem agressiva sobre terreiros & política, ocupando manchetes nalguns dos principais veículos brasileiros. Em 1992, o termo “Magia Negra” foi incorporado entre as acusações contra Fernando Collor, com fartos espaços denunciando “pais e mães de santo trazidos de Alagoas para rituais realizados na Casa da Dinda, residência oficial do presidente em Brasília, com o objetivo de proteger seu mandato e atacar opositores”. O Jornal do Brasil, em março de 1993, através de longa reportagem do jornalista Teodomiro Braga, reforçou o “envolvimento do ex-presidente com magia negra”. Uma década depois, em julho de 2012, o Fantástico, no mais nobre horário da Rede Globo, voltava à carga, veiculando a acusação da “prática de rituais de Magia Negra desde a época da candidatura de Collor para governador de Alagoas, em 1986”. Não há como não lembrar do Jornal de Alagoas, em 6 de fevereiro de 1912, estampando – em primeira página – contra os terreiros ligados a Euclydes Malta, em maiúsculas: BRUXARIA!

QUANDO SE FALA
do Quebra de Xangô, fala-se de elementos que estão vivos ainda hoje, num monólito cuja base tem formato triangular: Religião, Racismo, Política. Apagando qualquer um desses três itens basilares, a estrutura analítica não se sustenta, torna-se falso histórico, e só servirá para alimentar mitologias.

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