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Macumba, política, e apagamentos em Alagoas – Parte1

Por Enio Lins 25/02/2026

TIA MARCELINA merece um logradouro – expressivo – com seu nome, isto é certo. Justo. Apesar das poucas referências biográficas, tornou-se ícone da luta contra o racismo, contra a intolerância religiosa, contra a violência sobre as populações periféricas.

“NA ASTRONOMIA,
o alinhamento planetário ocorre quando diversos astros ficam visíveis ao mesmo tempo no céu, parecendo formar uma fila no horizonte. Na Astrologia essa ocorrência tem leitura mística: uma forte concentração de corpos siderais, em um mesmo signo, em um mesmo momento, intensifica os temas associados e traz reflexões profundas sobre suas influências”, diz a internet. Assim foi em 1912, quando se alinharam sobre Alagoas coriscos da guerra política-eleitoral, e das discriminações sociais, religiosas, raciais. Deu-se um cataclisma, intensificando todos os temas relacionados e trazendo reflexões profundas ao longo desses 114 anos, e segue.

FERNANDES LIMA
é o único governador alagoano etnicamente distanciado do padrão elitista branco, eurocêntrico. Para ser mais palatável aos racistas, adotou o epíteto de “Caboclo Indômito”. Governou por dois mandatos, de 1918 a 1924. Foi eleito também deputado estadual, deputado federal, senador e vice-governador. Advogado, jornalista, escritor, Lima é apontado, com razão, como corresponsável pelas violências, em 1912, contra lideranças religiosas afro-alagoanas. Suas digitais estão no Quebra de Xangô, crime cometido pela Liga dos Republicanos Combatentes, milícia comandada por um sargento reformado, Manuel da Paz, ex-combatente contra Canudos. Foram devastados muitos dos cerca de 30 terreiros existentes em Maceió e municípios próximos, por suspeitas de laços com o governador Euclydes Malta. Tia Marcelina, ferida por um golpe de sabre, é a mais célebre vítima da operação de ódio deflagrada pela oposição aos Malta. Foram igualmente atacados os terreiros de Chico Foguinho, João Aristides, João Funfun, Aurélio dos Santos, Manoel Coutinho, João Catirina, Manoel Inglês (cozinheiro de Euclydes e brincante da Marujada Jacutinguense), e outros.

EUCLYDES MALTA,
em 1912, estava no terceiro mandato e se preparava para seu grupo ganhar mais uma governança nas eleições marcadas para 12 de março. Branco, rico, culto, Euclydes liderava a Oligarquia Malta, no poder desde 1901, e tinha forte ligação com os cultos afro-brasileiros – nos pejis, era o Leba. Para quebrar a Oligarquia Maltina os opositores decidiram fraturar sua mais importante base social: os terreiros. Isso é o Quebra de Xangô. Ocorreu, não por acaso, naquele violento ano eleitoral. Na antevéspera da votação, defronte ao Palácio dos Martírios, dois assassinatos foram registrados: da oposição tombou o jovem advogado Bráulio Cavalcante; do governo, o tenente João Brayner. Era um domingo de sol, 10 de março de 1912, e as ruas maceioenses ferviam, 38 dias depois de Tia Marcelina ter sido ferida, na noite de 1º de fevereiro.

LOGRADOUROS EM MACEIÓ
 têm nomes voláteis. Infelizmente. Está em curso a proposta do apagamento de Fernandes Lima da principal avenida da capital. Foi projetada, como tal, pela marinha americana quando de sua temporada em Alagoas, entre 1943 e 1945, para ligar o Farol e o Aeroporto (militar). Muito antes disso era uma via modesta chamada de “Rua do Automóvel”, e já teve sua denominação fernandista retalhada em dois trechos: Lourival Melo Mota e Durval de Góes Monteiro. Tia Marcelina, representando o povo de terreiro de 1912, merece homenagens dignas daquele acontecimento histórico, sim! Mas o caboclo (ou pardo, cabra, cafuzo...) Fernandes Lima não se resume ao Quebra de Xangô. E apagar protagonistas do mapa não é a coisa mais acertada. Há tempos, passaram a borracha em Euclydes Malta, o Leba, e até a praça que levava seu nome foi rebatizada como Sinimbu. Seria o caso de manter esse tipo de política em vigor?

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