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Moisés, Bina, Edlúcio, Fernando: perdas irreparáveis

Por Enio Lins 20/02/2026

NO CARNAVAL 2026, cinco perdas me causaram profundo impacto: José Álvaro Moisés, Carlos Bina, Edlúcio Donato, Fernando Guimarães e Renato Rabelo. Sobre Renato, pelo papel político e ideológico nacional, publicarei algo mais amplo nos próximos dias.

JOSÉ ÁLVARO MOISÉS
morreu na véspera do Sábado de Zé Pereira. Afogou-se no mar de Ubatuba, São Paulo. Cientista político, professor universitário, jornalista e escritor, tinha 81 anos. Um dos fundadores do PT, sigla na qual foi dirigente de destaque. Afastou-se do partido em 1995, para acompanhar outro fundador, o notável sociólogo Francisco Weffort (1937/2021), na missão de pilotar o Ministério da Cultura durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso. No MinC, entre 1995 e 2002, Moisés foi um grande parceiro da cultura alagoana, sendo decisivo no contornar de tremendos obstáculos. Como seu homônimo bíblico, ele soube abrir as águas furiosas dos mares federais para que nossos projetos pudessem passar. A terrível inadimplência do governo alagoano, na época, impedia qualquer tramitação. Graças a ele, e a Weffort, realizações como o Tricentenário de Zumbi dos Palmares, o Seminário Tavares Bastos, e a restauração do Palacete Barão de Jaraguá se tornaram realidade.

CARLOS BINA
chegou em Alagoas nos anos 1980. Considerando a alagoanidade de quem aqui se cria, vive e trabalha, reconheçamos que Bina se transformou num autêntico papa-sururu. Ele já era nome conhecido na comunicação local nas eleições de 1988, quando foi candidato a vereador pelo PMDB, na chapa encabeçada por Renan Calheiros para prefeito e Sabino Romariz para vice. Magro, alto, sempre se portou como um cerimonialista estilo britânico – tinha formação nessa área pelo Instituto Rio Branco –, acentuando cotidianamente as terminologias e posturas corretas. Estabeleceu longa parceria com o saudoso José Elias, contribuindo para a coluna dele e dele recebendo informações igualmente preciosas. Trabalhou nos meios impressos, radiofônicos e televisivos. Partiu de repente, aos 64 anos de idade, na segunda-feira, 16.

EDLÚCIO DONATO
começou na política muito jovem, secundarista. Trazia do berço as experiências do pai, Edmundo Donato. Edlúcio jamais perdeu o brilho da juventude nem nunca renunciou ao sorriso largo, como comprovam as imagens em suas postagens na fase mais sofrida de sua luta pela vida. Convivi com ele durante o governo Renan Filho, período em que Edlúcio integrou, com muita competência, a equipe Mellina Freitas, na Secretaria de Cultura. Conversávamos frequentemente sobre ações governamentais, política, arte, cultura e comunicação. Em sua missão seguinte, como craque do time de JHC na prefeitura, continuou colecionando elogios. Presidente do Podemos em Maceió, avançava em sua liderança, alcançando novos espaços. Um câncer na próstata ceifou seu futuro promissor aos 45 anos de idade, na noite de segunda-feira.

FERNANDO GUIMARÃES,
médico e intelectual, pneumologista-referência na Santa Casa e no Hospital Universitário, se foi na terça-feira de Carnaval, aos 76 anos, em decorrência de um câncer, depois de décadas salvando vidas acometidas de mal idêntico. O conheci nas jornadas pela Redemocratização, anos 1980. Tempos depois, lembro dele me falar sobre a filha artista, e sua empolgação com a menina que tinha decidido ser cantora e compositora. Assim, Fernanda Guimarães sempre me foi e será “a filha do Fernando” – mas é muito justo, pela relevância da grande artista, a consolidação da lembrança dele como o “pai da Fernanda” (e da Mônica, lógico). Emblematicamente, uma de suas fotos, divulgadas em postagens quando de seu epitáfio, mostra-o radiante, esfuziante, pleno, no cordão do bloco Rock Maracatu – mais que uma agremiação carnavalesca, um movimento artístico-cultural que é seu neto legítimo.

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