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E chegou o Carnaval, em seu período oficial

Por Enio Lins 13/02/2026

ESTAMOS NO CARNAVAL oficialmente dito. Começam amanhã os quatro dias, formalmente três, mas na folhinha é tão-somente um. Feriado mesmo, de papel passado, só o assinalado na terça-feira. E ponto. Marca o derradeiro dia antes da Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma, pretendidos 40 dias de sacrifícios para os cristãos, tempo programado para reflexão, penitência e oração que deveria se estender até a Páscoa. O dia pascal exato varia anualmente, pois a referência eclesiástica ainda é baseada nos antigos sistemas pagãos de observações astronômicas, identificando o primeiro domingo depois da primeira lua cheia durante o equinócio de outono. Entendeu? Não importa. A cristandade, a rigor, não pratica nada dessas determinações ascéticas, e estica as delícias pecaminosas do que deveria ser um único dia de “despedida da carne”.

SÁBADO DE ZÉ PEREIRA
é a porta de acesso ao desmantelo. Termo importado de Portugal. Registrado por aqui desde o século XIX. A versão adaptada aos trópicos alimenta o mito de que teria nascido da abnegação de um folião de origem portuguesa, chamado José Pereira, que saía pelas ruas do Rio de Janeiro, batendo um bumbo, para anunciar a hora de começar as imoderações do Entrudo. Zé Pereira fazia isso, reza a lenda, no sábado anterior ao início das restrições quaresmais, antecipando – e acrescentando – três dias ao que deveria ser um dia só. Pelo sim, pelo não, essa esbórnia é muito antiga, e vem do além-mar.

EM ALAGOAS,
como sabemos, o bumbo toca desde o final de janeiro. São as prévias. Esfuziantes. No Carnaval oficial, a fuzarca arrefece nas ruas, parcialmente esvaziadas das tropas foliãs, que migram temporariamente para as mecas da devoção carnavalesca, ao Norte (Recife/Olinda) ou ao Sul (Salvador ou Rio). Mas, como se diz, resistir é necessário. E aqui vão algumas linhas em defesa de alguma programação mais consubstanciada para os dias carnavalescos. Fiquemos, por ora, no caso da capital alagoana.

ME PERGUNTO
se a prefeitura de Maceió não poderia investir mais, em criatividade e recursos, entre o Sábado de Zé Pereira e a Terça-feira Gorda. Por exemplo, não seria o caso de uma restauração (e multiplicação) do antigo conceito da Praça Moleque Namorador? Foi algo único em seu tempo, no Brasil. Concebido na gestão Sandoval Caju (1961/1964), o logradouro se destinava a reunir quem, de fato, fazia o passo. O formato original era circular, para atender ao girar da massa. Como bem lembra o folião e pesquisador Cleonilson Alves, ali formavam-se círculos hierárquicos no frevar, girando: quanto mais perto do epicentro – a estátua do Moleque Namorador – mais “lóca” era o/a passista, e pernadas eram lei, às vezes sem brigas. “Lóca” (acentuo para aproximar mais do som do vocábulo) era/é o diminutivo para maloqueiro e maloqueira, com o sentido de craque ou de bamba, mestre. No derradeiro círculo, destaca Cléo, imperavam os maiorais, chamados “do contra”, girando no sentido contrário a todos os demais. São raízes que podem, talvez, ser revividas, aflorarem, e se transformarem em polos culturais de grande valor.

VERA ROMARIZ,
poetisa e carnavalesca, divulgou, em janeiro deste ano, um poema intitulado Devasso Carnaval. Repasso-o ao leitorado como brinde para a folia 2026: “Preciso tecer a memória travessa de um carnaval imaginado. Namorados e namoradas oficiais proibidas dores de amor interrompidas durante três intensos dias. Alianças jogadas no infinito sem bilhete de volta. Suspensas todas as normas que afrontem a seriedade cansativa dos dias comuns. Um carnaval sem pierrôs chorando e colombinas levemente bêbadas mergulhadas no prazer de terem provisoriamente asas e vozes alegremente desafinadas cantando o prazer de não serem de ninguém. Depois ao som do frevo Vassourinha a alegria menina da infração deliciosamente louca rouca com direito a uma escrachada revolução. Um carnaval sem santos na alegria doidinha de um frevo rasgado alagoano para sempre um moleque namorador”.

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