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A volta dos que não foram, e com gosto de gargarejo de dragão
HOJE SERÁ O DESFILE Tributo ao Bloco Meninos da Albânia, um novo bloco que chega para ficar, apoiado numa base firme: as raízes da agremiação cujo primeiro presidente, e porta-voz, foi o saudoso jornalista e militante comunista Plínio Lins – que exigia o uso do termo “Presidente Decorativo” para seu glorioso posto, como exercício da sátira política e forma de destacar um comando autenticamente coletivo.
FOI UM BLOCO SINGULAR. Único. Nasceu, como dito aqui em artigo anterior, em 1986, rebento de uma quase gravidez indesejada, brotada das eleições de 1985. Veio ao mundo graças à pressão radiofônica do comunicador e carnavalesco Edécio Lopes, através de seu poderoso programa “Manhãs Brasileiras”, que apostou na capacidade da militância do PCdoB em fazer acontecer um bloco que fosse um fato novo e impulsionasse o renascimento do Carnaval de Rua em Maceió. Ele acertou. A experiência foi um enorme sucesso, fundamental para a multiplicação de outras agremiações, para a criação a Liga dos Blocos. E, mais tarde, desaguando em marcos atuais como o Pinto da Madrugada e o Jaraguá Folia. Depois de aproximadamente duas décadas de ebulição na avenida, adversidades típicas do processo folião fizeram o bloco encerrar suas atividades em 2003, como retrata artigo de Edberto Ticianeli (histórico Menino da Albânia e dirigente do bloco), no site História de Alagoas.
NO ANIVERSÁRIO DE 40 ANOS, uma nova militância resolveu, em boa hora, botar a história na rua. Charles Hebert, Mariana Moura, Thiago Souza, Ana Paula, Thiago Bomfim, Naldo Freitas são alguns os novos meninos e meninas da Albânia que organizaram o evento tributário de hoje, e ganharam a parceria de um time de fundadores, como Cleonilson Alves, Paulo Poeta, Nide Lins, Chico de Assis, Solange e Osvaldo Viégas, Alba Correia, Marivone Loureiro, Cutia, Sinval, Pedro Nelson e Taís, Nonato (grande carnavalesco do Vergel do Lago, presente desde o primeiro desfile, e responsável pelo belo estandarte deste ano)... e outras tantas figuras das antigas, como este que vos escreve. É um projeto que voltou para ficar, para repovoar às ruas com a meninice sem idade da verve foliã satírica, política.
MARCA REGISTRADA do histórico é a sátira política. Inclusive, depois da queda do peculiar modelo socialista do pequeno país dos Balcãs, renomeou-se como “Meninos Órfãos da Albânia” para tirar onda consigo mesmo. Outra particularidade única foi a profusão de músicas autorais, originais, numa trilha sonora mesclada com os mais variados sucessos carnavalescos, sem compromissos com estilos determinados. Em cada ano, o tema oficial era desdobrado em alegorias das mais variadas, inclusive – nos desfiles de 1991 – com a inusitada coreografia de um bolero, o clássico “Bésame Mucho” (composição da mexicana Consuelo Velásquez), transformado, no ano anterior, em escândalo matrimonial e político pela dupla ministerial Bernardo Cabral e Zélia Cardoso de Mello.
RICARDO MOTA é o autor de praticamente todas as músicas da meninada da Albânia - uma das três músicas de 1986, Cometa Constituinte, em parceria com Roberto Barbosa -, missão na qual também brilhou Máclein, nos últimos anos dos órfãos albaneses na avenida (um dos frevos dessa fase, em parceria na letra com Sávio de Almeida). Para o desfile de comemoração pelos 40 anos do bloco, Paulo Poeta encarnou seu lado cantor e gravou, retirando de seu precioso baú de recordações, uma paródia da canção “As Cantoras do Rádio” (eternizada na voz de Carmen Miranda), feita por Ricardo, versão cantada originalmente uma única vez, na festa pela comemoração da eleição de 1985, quando não se pensava em bloco carnavalesco. A nova gravação já se encontra disponível nas redes. Mota, como não podia deixar de ser, é o autor do hino do bloco: “Escreveu não leu, / O pau comeu / Fez o jogo baixo, Lá vai esculacho! /(BIS) / Nós somos a língua ferina do povo / Pra quem duvidava, / Olha nós aqui de novo / Nós somos o bloco dos Meninos da Albânia / Mostrando na rua / O que tá podre no poder!”, cuja gravação está prevista para logo mais, num projeto que visa registrar todo o acervo musical do grupo.
REENCARNADA NUM NOVO CORPO carnavalesco, a alma da meninada albanesa já se apresenta com projetos em andamento, como a regravação das antigas músicas (sob a coordenação de Paulo Poeta), um livro sobre a história dos Meninos da Albânia (sob a caneta de Cleonilson Alves) e um vídeo documentário (Marola, Poeta e mais cineastas no comando). A meninice está de volta, sem idade. E o primeiro desfile neste novo velho rumo será nesta sexta-feira, no Jaraguá Folia. Evoé!

