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Uma mulher, trabalhadora, cidadã e artista, à frente de seu tempo

Por Enio Lins 05/02/2026

DONA ZEZÉ LE CAMPION se foi. Na verdade, já tinha se afastado do mundo real, involuntariamente, e se recolhido a um universo interior, solitário, paulatinamente incomunicável e indecifrável. Sua pintura sofisticada, elaborada, de matriz impressionista, acompanhara esse regresso, transmutando-se em rascunhos cada vez mais infantis, ingênuos, despojados. Aos poucos foram sumindo de sua compreensão nomes, lugares, parentes e a capacidade de se localizar no tempo e no espaço. Provavelmente, além das artes plásticas, terá esquecido antes da hora, outra arte na qual era mestra: a taquigrafia. Nunca perguntei por quanto tempo teria mantido a fluência no francês, sua segunda língua. Aos 99 anos incompletos, anteontem, ela descansou.

MARIA JOSÉ
nasceu em Maceió, em 12 de agosto de 1927. Filha de pais libaneses, Amine e Gabriel, e foi batizada com o sobrenome dos Najm Chalita, incorporando as raízes de um Líbano de cultura árabe-francesa e com longínquos laços com o cristianismo maronita. Como seu irmão mais famoso, ela era pintora de talento, mas usava os pincéis e paletas como lazer. Pierre Gabriel Najm Chalita – o irmão dedicado à arte, cultura e colecionismo histórico – focava nas nuances sociais e psicológicas, na sexualidade, e nas contradições da humanidade; pendia para o épico. Zezé preferia a temática da Natureza, retratada por ela em pinceladas soltas, levadas pelo vento – ou pelas chamas, pois gostava de usar cores quentes. Era firme, modesta e reservada, e seu currículo resumido registra, pelo menos, 10 exposições (a maioria em Recife, Olinda e São Paulo). Mas ela gostava mesmo era saber seus quadros – presenteados – pendurados nas paredes de parentes ou pessoas queridas.

PREZAVA A INDEPENDÊNCIA,
e trabalhou a vida inteira. Mesmo depois de aposentada do posto de taquígrafa da Assembleia Legislativa de Alagoas, exercia seu mister - exímia taquígrafa - para encomendas autônomas como degravações de palestras e áudios similares. Revisava textos primorosamente, e não se cansava em traduzir do e para o francês. Era uma libertária, avançada em relação ao tempo dela e mesmo aos nossos dias. Mãe de três filhos – Michel, Gabriel e Eva (que prossegue na senda das artes plásticas) – multiplicou-se numa descendência notável, e deixa lições para além da família de sangue. Assinava suas obras como Le Campion e vários de seus quadros seguem circulando em galerias reais e virtuais, como na https://rodriguesgaleria.com.br
(para citar só um exemplo, e de cujo portfólio capturei as fotos publicadas aqui e agora.

EDMOND LE CAMPION
foi o marido e pai de seus filhos e filha. Francês, com certo pendão contestador e anarquista, ele viveu em sua terra natal até depois da II Grande Guerra Mundial. Durante a ocupação da França pelos nazistas, participou de ações da Resistência, sendo ferido no final dos combates, quando já estava vinculado à Cruz Vermelha. Salvou-se da gangrena graças às primeiras experiências feitas pelos aliados com a penicilina. Revoltado com o que considerou descaso do novo governo francês para com quem militou junto aos maquis contra os ocupantes alemães, mudou-se para o Brasil. Após uma curta temporada no Rio de Janeiro, veio para Alagoas, onde começou trabalhando em obras rodoviárias, migrando posteriormente para a comercialização de pescados e terminou fundando o que foi a principal indústria alagoana no ramo, a IFRIL. Nesse intervalo, ainda no começo de sua ambientação em Maceió, conheceu a jovem Zezé, a filha dos libaneses Amine e Gabriel, moça independente, e fluente em francês. Casaram-se, e ela incorporou o sobrenome que a acompanhou pelo resto da vida.

MERECE UM LIVRO
a vida de Dona Zezé (Najm Chalita) Le Campion. Sobre a existência de Edmond, l'iconoclaste, então, nem se fala. Por ora, ficam essas linhas em tributo.

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