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Os votos que brotam da covardia e da morte de inocentes

Por Enio Lins 28/01/2026

NOS ESTADOS UNIDOS está se matando gente como espetáculo público de terror para o prazer de um rebanho de eleitores que se movem guiados pelo cheiro de sangue. Não é descontrole, não são homicídios que surgiram por acaso. É método. Mas não é apenas no grande circo americano que isso acontece. Em São Paulo, no Rio, atração idêntica está em cartaz, embora não seja encenada sob a motivação de “caça aos migrantes ilegais”. Aqui é a “caça aos marginais” – mas aqui e acolá, a meta é a mesma: oferecer resultados a um numeroso grupo social, adepto da violência aberta como a mais eficiente forma de combate a outros grupos sociais considerados descartáveis.

DESDE O IMPÉRIO ROMANO, 
maior das referências civilizatórias do dito mundo ocidental, o espetáculo da morte é tratado como atração pública. O Coliseu foi a maior, mas jamais a única arena construída para o show de matar gente. E sobre as pessoas mortas naqueles espaços sempre pesavam alguma justificativa que se pespegava na vítima, antes ou depois de ser tornada cadáver: “Se morreu assim foi porque mereceu, alguma coisa de errado fez”. Quando, nos Estados Unidos, o ICE (Immigration and Customs Enforcement) executa sumariamente, publicamente, à luz do dia, civis inocentes, passa para um público específico uma mensagem límpida, sem filtros: “me veja matando por você, eliminei um vagabundo para sua segurança e para seu prazer”. E a torcida vai ao delírio, em gáudio (mesmo que no sacrossanto refúgio do lar) pela morte alheia.

TRANSFORMADA NUMA MILÍCIA TARADA
, ultraviolenta, assassina, a polícia migratória federal americana, o ICE, – sob o comando do autocrata Donald Trump – cumpre o papel desempenhado pela Sturmabteilung (Tropa de Assalto) durante o processo de tomada do poder pelo autocrata Adolf Hitler na Alemanha. Nas terras germânicas, nos idos dos anos 30, os camisas pardas desciam a lenha em público contra judeus e comunistas, eventualmente matando algumas dessas pessoas rotuladas pelos nazistas como “vagabundos” – e uma parcela cada vez maior da população germânica, “homens e mulheres de bem” aplaudia, aderia à tese de que “banido bom é bandido morto”. Os campos de extermínio não surgiram do nada, mas da necessidade justificada para boa parte da população alemã de que muita gente indesejável precisava sumir do mapa.

MATAR AO SE SENTIR SOB AMEAÇA 
é um mantra não só para as polícias americanas, mas entoado também no Brasil. Não importa se o risco é real ou imaginário – essa é a regra, norma que faz milhões de  pessoas do tipo “homens de bem” considerar a maior das virtudes o direito de ter uma arma pronta para matar também quem possa enxergar como “vagabundos que ameacem minha família e meus bens”. Mas, para essa gente, a reação letal é seletiva, como se pode comprovar – no Brasil – pelo assassinato, em 22 de novembro de 2024, do jovem Marco Acosta, de 22 anos, estudante de Medicina, por ter empurrado um retrovisor de uma viatura da PM paulista; perseguido pelos policiais, foi encurralado, subjugado e executado com um tiro à queima-roupa. Em contrapartida, o ex-deputado federal Roberto Jefferson, em 23 de outubro de 2022, disparou e jogou granadas(!) contra policiais federais, ferindo agentes da lei, e depois dessas tentativas de assassinato, foi acarinhado por longas horas de beijos a abraços para convencê-lo a se entregar sem se estressar, e hoje curte uma confortável prisão domiciliar. Dois pesos, duas medidas. Em São Paulo, o governo Tarcísio de Freitas fracassou em todos os quesitos, especialmente no combate ao crime (nada mudou por lá), mas oferece um vistoso cardápio recheado por mortes e violências causadas por policiais, justificando-as como "contra vagabundos" - e está forte candidato à reeleição ou à presidência da República.

NOS ESTADOS UNIDOS
, e no Brasil também, gente como Trump aprendeu a velha lição que matar inocentes rende votos, e consolida um eleitorado expressivo, apreciador desse tipo de espetáculo.

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