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O êxodo artístico dos astros e estrelas radiosas alagoanas

Por Enio Lins 23/01/2026

CLAUDEVAN MELO é um personagem raro, quiçá único, enquanto ativista cultural. É o maior colecionador de memórias artísticas de sua terra natal: Alagoas. Ninguém tem um acervo como o dele (em termos quantitativos e qualitativos) nem aqui nem alhures. Descreio que, proporcionalmente, alguém possua, em qualquer Estado brasileiro, o que esse alagoano rio-larguense possui sobre artistas conterrâneos. Coleção esta, ressalte-se, adquirida com recursos próprios, ao longo de meio século, e segue sendo acrescida ano após ano, sem quaisquer aportes públicos. Aos poucos, apoiado num edital aqui, outro ali, esse guerrilheiro da cultura alagoana tem conseguido publicar livros e realizar exposições sobre seu tesouro. Neste sábado, 24, mais um título vem ao lume, desta vez se anunciando como o primeiro de uma sequência sobre a mesma temática.

COM O TÍTULO
A Diáspora Alagoana na Música Brasileira, esse primogênito da série reúne informações biográficas sobre 15 artistas que emigraram em busca de oportunidades, e fizeram sucesso fora de seu torrão: Thelma Soares, Aildo Mello, Mané Baião, Genaro Plech, Humberto Marsicano, Carlos Galindo, Benedito Nunes, Harry Vasco, José Cândido, Adelzonilton, Luiz Gonzaga da Silva, Hugo Santana, Guriatã de Coqueiro, Saraiva, Jayme Silva. Thelma é a única pessoa dessa lista que conheci (a mim apresentada por Marcos de Farias Costa, há muitas décadas), e sobre ela assinala Ricardo Cravo Albim – outro alagoano notável – que Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) escreveu, em 1966, sobre o disco “Thelma Soares interpreta Nelson Cavaquinho”, produzido pelo próprio Porto: “Tal é este LP que junta uma cantora excelente no presente e promissora no futuro a um veterano sambista, que até agora vinha sofrendo a injustiça de não ser difundido à altura de seu valor artístico…”.

GERALDO DE MAJELLA,
historiador e comunicador, inicia o prefácio da obra afirmando que “O livro ‘A Diáspora Alagoana’, do pesquisador Claudevan Melo (1951), aborda de forma pioneira a dispersão — ou verdadeira revoada — de dezenas, talvez centenas, de músicos e compositores alagoanos que, por diferentes motivos, deixaram o estado entre 1904 e a década de 1970. Esse recorte temporal foi estabelecido pelo próprio pesquisador, como referência para compreender o movimento migratório e as trajetórias desses artistas”, complementando que “As revelações sobre nomes, parcerias e circunstâncias em que as obras foram criadas permitem, mesmo após décadas, reinserir oficialmente esses músicos e compositores na história da música brasileira. Muitas de suas canções, ainda hoje conhecidas e cantadas, tiveram seus autores esquecidos ou silenciados”.

PINÇO, DA OBRA
a ser lançada amanhã, outro personagem entre os 15 artistas apresentados por Claudevan, escolhendo apenas pela singularidade do nome artístico: Guriatã de Coqueiro. Batizado como Augusto Pereira da Silva, nasceu em Santana do Ipanema em Alagoas em 1926, repentista embolador desde os 13 anos, percorrendo as feiras em sua região, cantando para ganhar o pão. A partir de 1946, passou a embolar em São Paulo e no Rio, brilhando entre nordestinos e nativos, nas praças do paulistano Brás e na carioca Feira de São Cristóvão. Assinala Claudevan que coube a Guriatã de Coqueiro, associado eventualmente a dois outros trovadores-repentistas alagoanos – Lourival Bandeira e Aurino Santana – o pioneirismo na “difusão no sudeste das modalidades Quadrão Alagoano, Pagode Alagoano, Martelo Alagoano, Coco, Calango de Roda, Embolada e Sextilha sertaneja”.

QUER MAIS?
Neste sábado, 24, entre 15 e 17 horas, no Espaço Cultural da UFAL (Antiga Reitoria, na Praça Sinimbu, Centro de Maceió), será lançado o livro A Diáspora Alagoana na Música Brasileira. Compareça, e saia de lá com seu exemplar autografado.

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