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Trump e o velho imperialismo americano sem maquiagem

Por Enio Lins 21/01/2026

NÃO SE PODE ACUSAR Donald Trump de ser dissimulado. Ele vai direto ao ponto – mentindo, ou falando a verdade – como ação para aterrorizar e imobilizar a vítima. Anuncia sua meta, confessando antecipadamente o crime que irá cometer. E já visou que quer anexar mais uma fatia expressiva de terra aos Estados Unidos, pode ser o Canadá ou a Groelândia, quiçá ambos, sem meias-palavras: “Ou vocês me dão de graça, ou vendem, ou eu os assalto à mão armada”. Direto na lata.

É UMA TÁTICA TRUMPISTA,
personalizada. Mas a estratégia é a mesma de todos os seus antecessores desde a Doutrina Monroe (1823) e de seu aperfeiçoamento pela Política do Grande Porrete (1901), como muita gente tem lembrado. Relembrando: no governo James Monroe (entre 1817 e 1825) foi anunciada a política dos Estados Unidos contra “uma nova colonização europeia nas Américas”, mascarando – parcial e porcamente – a orientação verdadeira: “no resto do mundo, apenas os Estados Unidos podem colonizar”. No período Theodore Roosevelt (entre 1901 e 1909), a conversa mole endureceu para a consigna “fale manso e tenha na mão um grande porrete”, ou seja: é para descer o cacete em quem resistir ao papo de batedor de carteira dos americanos.

AO INSISTIR EM ROUBAR
a Groenlândia da Dinamarca, Trump desmoraliza a OTAN, instrumento que ele considera um peso morto. Os Estados Unidos têm arcado com 2/3 do orçamento da OTAN, jogando anualmente pela janela cerca de US$ 1 trilhão (valores de 2024). A Organização do Tratado do Atlântico Norte foi inventada em 1949, para se opor a um suposto avanço da União Soviética para além das fronteiras conquistadas durante a II Grande Guerra. Essa pulada da “cortina de ferro”, jamais existiu. O Exército Vermelho se deteve rigorosamente nos limites ocupados até 1945. No restante da Europa, a marca foi entrega das armas dos grupos de esquerda no imediato pós-guerra. Na Grécia e na Itália, por exemplo, as forças de resistência contra o Nazismo se mantinham como exércitos não-convencionais de grande força e prestígio. Partizans italianos e gregos, por orientação de Moscou, desistiram de batalhas praticamente ganhas em seus países, submetendo-se a um acordo firmado entre USA e URSS para divisão do mundo em áreas de influência. Naquele cenário, a OTAN foi a primeira grande (e cara) rasteira aplicada pela Casa Branca contra o Kremlin, que só reagiu seis anos depois, em 1955, com a criação do Pacto de Varsóvia, extinto com o fim da URSS, em 1991. Rigorosamente, inexistem razões para o tesouro americano seguir pagando os jogos de guerra para europeus.

NÃO EXISTE A OTAN
sem os Estados Unidos, assim como não existiu o Pacto de Varsóvia sem a União Soviética. A OTAN não é uma unidade operacional verdadeira, é totalmente brocha sem o adjutório químico estadunidense. E Casa Branca só libera as substâncias eréteis para outrem se for para violentar alvos preferenciais do governo americano. Na Europa, apenas Inglaterra preservou forças armadas com alguma desenvoltura, e mesmo assim penaram – entre abril e junho de 1982 – para derrotar as desmoralizadas tropas da ditadura argentina na “Guerra das Malvinas”. Naquele confronto, morreram 649 militares argentinos e 255 britânicos, numa estatística tenebrosa em que o lado vencedor sofreu praticamente 50% dos óbitos em relação aos derrotados. Fora essa exceção de 1982, todas as incursões bélicas europeias dignas de registro têm acontecido como coadjuvantes das tropas americanas, seja no Iraque, Afeganistão, ou nos conflitos africanos. Terá hoje a OTAN como peitar os marines?

OUTRO DESPAUTÉRIO
que joga na lata do lixo as aparências da diplomacia americana é a proposta de Donald de uma “Comissão da Paz” para Gaza. Mas como o espaço aqui está findando e a página não é de elástico, voltarmos a esse tema específico depois.

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