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Prêmio Nobel da desesperança, da venalidade e da guerra
RIDÍCULA, VERGONHOSA, execrável a atitude da “líder” da oposição venezuelana Maria Corina, oferecendo seu (injustificável) Nobel da Paz para Donald Trump. Uma humilhação autoinfligida como nunca vista. Um dia antes, o autocrata americano disse que aceitaria a medalha da fulana e a dita cuja correu para entregar o ouro. O Instituto Nobel da Noruega e o Comitê Nobel Norueguês detonaram o troca-troca, afirmando que o prêmio “não pode ser transferido, compartilhado ou revogado”, ou seja, traduzindo para o bolsonarês compreensível pelos fãs da moça: “intransferível, incompartilhável e irrevogável”.
DESMORALIZADO, O NOBEL DA PAZ tem chafurdado em escolhas infelizes, privilegiando personagens poderosos em cujos currículos não consta nenhuma contribuição pacifista. Assim foi com Barack Obama, premiado em 2009, com menos de um ano na presidência, o primeiro negro que alcançou a Casa Branca lançou-se à guerra, ampliando as tropas invasoras no Afeganistão, onde intensificou a violência antes de devolver a rapadura para a Al-Qaeda e o Talibã; interveio na Líbia para derrubar Gaddafi, e repassou o poder para grupos ainda mais sanguinários – e por aí foi, longe dos caminhos da paz. Mas a mais vergonhosa de todas as concessões foi o Nobel da Paz de 1978 para o notório terrorista Menachem Begin, então chefe de governo israelense, e líder do grupo extremista Irgun (responsável pelos maiores atentados na Palestina desde os anos 40). A dama do machado foi mais um gol contra, mas ninguém nunca tinha tentado passar a medalha adiante como moeda de troca.
CORINA QUER ESCAMBIAR a medalha como entrada nas prestações do pagamento para o presidente americano colocá-la na cadeira presidencial da Venezuela. Donald ficou verdadeiramente chateado por Maria Machado ter ganhado o Nobel que ele queria para si, buscando se ombrear com seu desafeto Obama. Mas não será menos de 175 gramas de ouro (peso total da medalha, composta por uma liga de prata, ouro e cobre) que fará Trump entregar o poder à vendida Maria, ou a alguma marionete dela, pois, até prova em contrário, é mais fácil e barato manter a chavista Delcy Rodríguez como presidenta. Pelo menos, pelo que se vê, parece ser assim. De toda forma, anuncia-se que o monarca da Casa Branca vai receber Maria Oferecida amanhã e, quem sabe, além condecoração, ela possa dar algo a mais que convença Trump a fazê-la descer de paraquedas no Palácio de Miraflores. Aguardemos os próximos capítulos, mas a vergonha do Nobel da Paz já está garantida, em primeiro lugar, pela deslavada politicagem dos responsáveis pela escolha de quem homenagear.
NÃO CABE UM NOBEL para Maria ou para Trump, nem para Putin, Maduro, Zelensky, Khamenei, Netanyahu ou quaisquer outros nomes envolvidos com invasões militares, violências, politicagens e golpes de estado. Conceder uma premiação relevante a algum desses personagens é um gesto anticivilizador. Grave desserviço, pois o prêmio – concedido desde 1901 – teve grandes momentos, como a distinção da Cruz Vermelha (1917, 1944 e 1963), Jane Adams (1931), Alto Comissariado da ONU para Refugiados (1954), Martin Luther King (1964), Anistia Internacional (1977), Adolfo Perez Esquivel (1980), Desmond Tutu (1984), Rigoberta Menchú (1992), Nelson Mandela (1993), Yasser Arafat, Yitzhak Rabin e Shimon Peres (1994, por construírem o único acordo efetivo para a paz no Oriente Médio, mas entendimento detonado pelo assassinato de Rabin pelos próprios israelenses) – e aqui só estão listados destaques do século XX. A lista dos nomes impróprios é grande, e merece ser criticada sem pena, pois mina a credibilidade de uma premiação que poderia, de verdade, ser uma referência da ética e da coragem na construção da paz. Que Maria Corina, revendedora ignóbil do Nobel, seja uma lição.

